sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Senta que lá vem história (entrevista com Cláudio Dienstmann)

Com seis Copas, uma Olimpíada e a carreira dedicada ao jornalismo, Cláudio Dienstmann é uma lenda viva do jornalismo

Paulo Pires | Grupo Sinos
Gravataí - Em uma sala aconchegante, sentado em frente a um notebook, praticando aquilo que melhor sabe fazer: contar boas histórias. É assim que encontramos Cláudio Dienstmann que, apesar de ter se desligado do seu último emprego jornalístico em 2014, segue publicando colunas na internet e escrevendo livros. “Aqui nesta máquina há dois prontos. Um sobre o centenário da Federação Gaúcha de Futebol, que ocorrerá este ano, e outro sobre o centésimo Gauchão da história, que acontecerá em 2019”, conta. Contudo, o jornalista e escritor aguarda por parcerias a fim de publicar as duas peças.

O homem que cobriu seis Copas do Mundo, uma Olimpíada e que conheceu mais de 50 países em uma vida inteira dedicada ao jornalismo esportivo é, acima de tudo, humilde. Mora no bairro Salgado Filho, em Gravataí, com a esposa, Marilia. Com uma memória invejável, conta com detalhes tudo o que vivenciou. Nascido em Estrela, em 1943, Cláudio saiu de sua cidade natal diversas vezes. Em uma destas saídas, teve seu primeiro estágio, no Diário do Noroeste, em Paranavaí (PR).

De volta ao Estado, em 1966 passou a trabalhar em uma cooperativa. No ano seguinte, iniciou a faculdade de jornalismo na PUCRS e conseguiu estádio na Folha da Tarde. Em 1972, trabalhou na Folha da Manhã para, em 1975, ir ao Rio de Janeiro (Jornal do Brasil e sucursal da Caldas Júnior). Em 77, a filha, Márcia, nasceu. Então, Dienstmann retornou ao Rio Grande para trabalhar no Correio do Povo, em 1978, e na Zero Hora, de 79 a 95. Depois, passou a trabalhar com assessoria de imprensa na CRT (95), Inter (96-2000 e 2001) e Secopa de Porto Alegre (2009-2014).

Almoço com Pelé 

Dienstmann assistiu, in loco, as Copas do Mundo de 1974 a 1994. “Só não fui a de 98 para não deixar o Inter na mão”, conta ele que, à época, era assessor de imprensa do Colorado. Mas, uma de suas maiores histórias aconteceu em Erechim, em 1970, pouco depois de a Seleção Brasileira ter conquistado o tricampeonato mundial, no México.

Em meio ao torneio de inauguração do Estádio Colosso da Lagoa, o jornalista teve a oportunidade de ouro de entrevistar Pelé enquanto almoçava com o Rei do Futebol.

“Estava lá pela Folha da Tarde e aguardei ele no saguão do hotel, enquanto tirava fotos com fãs. Após duas horas, depois de todos os seus companheiros almoçarem, já com o restaurante vazio, ele me olhou e disse: ‘tu é o repórter, né? Vem almoçar comigo’. Ele contou, com exclusividade, que se despediria da Amarelinha e não iria à Copa de 1974”, relembra.

"Jaula" com Ben

Em meio a duas horas de conversa, Cláudio Dienstmann pediu para falar sobre a Olimpíada de 1988, em Seul, na Coreia do Sul. De lá, trouxe na bagagem diversas histórias pitorescas e emocionantes. “Quando cheguei, descobri que não tinha a credencial e precisei me juntar a jornalistas de países como Benin e Belize. Na Vila Olímpica, consegui me mudar e fiquei com paraguaio, indiano, chinês e outro do Catar”, conta.

Mas, como em todos os Jogos Olímpicos, o momento mais esperado é a prova dos 100 metros rasos. E a de Seul, foi uma das mais emocionantes de todos os tempos, com a histórica rivalidade entre Carl Lewis e Ben Johnson. Foi em uma das provas eliminatórias que Dienstmann viveu um momento memorável. “Passei por dois seguranças grandes, avistei uma porta. Achei que fosse a saída e entrei. E lá estava o Ben Johnson, secando o Lewis. Parecia um tigre dentro de uma jaula”.

Uma mãozinha para Felipão

Arquivo pessoal
Dienstmann guarda diversas fotos de suas viagens pelo planeta. Abaixo, com os então colegas de empresa, ele está no Japão, acompanhando o Mundial Interclubes entre Grêmio e Ajax. Foi da Terra do Sol Nascente que vem outra história interessante.

Ao invés de cobrir o Grêmio, Cláudio acompanhou de perto os passos do adversário, assim como fizera em 1983, com o Hamburgo.

Na cola do Ajax, Dienstmann foi até Madrid, assistir ao amistoso que a equipe holandesa fez com o Real. “No treino pré-jogo, observei a roda de bobinho. Mas, ao assistir à partida, percebi que aquele tipo de atividade servia para preparar a saída de bola, com passes longos”, conta.

Com um relatório mental pronto, o jornalista encontrou-se com Luiz Felipe Scolari, então técnico do Grêmio. “Fomos para o quarto e conversamos por horas. E o Felipão acabou utilizando a estratégia, que deu certo. Afinal, contra um dos melhores times do mundo, jogando a maior parte do tempo com um jogador a menos, o Grêmio segurou o 0 a 0 e quase ganhou. Sinto que uma parcela de ‘culpa’ pelo resultado é minha”, completa.

Mais de 50 países 

Contando as Copas do Mundo, Copas América, Mundiais de Clubes e excursões com a Seleção Brasileira, Cláudio Dienstmann acredita ter conhecido mais de 50 países durante sua trajetória jornalística.

“Em 1973, viajei por nove países com a Seleção Brasileira em uma grande excursão pelo mundo. Era tanta mudança de local que, ao acordar, à noite, para ir ao banheiro, não sabia onde ficava a porta correta. Era uma loucura”, conta.



CURTINHAS 

TELEFONE

Cláudio Dienstmann e a esposa chegaram a Gravataí em 1979 e, desde 1982, moram na mesma casa, na Rua Walter Jobim. “Comprei um telefone em 79 e ele chegou em 82, pouco antes de cobrir a Copa do Mundo da Espanha. Queria falar ao menos uma vez por semana com a família. Foi aí que meu colega, Jorge Furtado, disse: ‘se votares na minha mãe, ela consegue uma linha para ti’. Deu tudo certo”, brinca.

O EDITOR

Em diversas histórias o editor de esportes da Folha da Tarde foi citado por DIenstmann. “Ele não gostava muito de mim. Quando acabou meu período de experiência, ele renovou o estágio ao invés de me efetivar”, lembra. Depois de contar a história com Pelé, Cláudio lembrou que, tempos depois, teve acesso ao jornal do dia seguinte. E o resultado? Uma matéria pequena. “Ali tive certeza”, brinca.

INESQUECÍVEIS

Como cobriu muitos eventos fora do País, Dienstmann não acompanhou muitos Campeonatos Gaúchos. Mas, lembra, com carinho, de dois. “Em 1969, na primeira final com Gre-Nal, o Inter foi campeão com um 0x0 e o Ibsen Pinheiro invadiu o campo após a anulação de um gol. E, em 1975, no Olímpico, o Inter venceu por 2 a 1. Estava 2 a 0 e o Falcão marcou gol contra, encrespando o jogo”.

PREMIAÇÃO

O Gre-Nal de 1969 rendeu ao jornalista o seu primeiro Prêmio ARI - já conquistou dez ou mais, segundo ele -, a mais importante consagração da profissão no Rio Grande do Sul. Dienstmann conta que se inspirou no livro de George Orwell, 1984. “Tirei ideias dele para escrever a crônica apresentando o jogo, intitulada ‘Grenal, a rivalidade que nunca pode acabar’. Foi uma honra”.

LÁGRIMAS

A cobertura olímpica foi bem detalhada. Ele lembra do dopping, que tirou a medalha de ouro de Ben Johnson. “Meu editor, aqui do Brasil, me acordou às 4 horas da manhã, cobrando que a informação já tinha vazado. Eu não descansava. Sorte que era amigo do De Rose (médico), que me confidenciou tudo. Quando a Olimpíada acabou, levei três horas para gravar três minutos de boletim, de tanto que chorava”.

RIVALIDADE

Dienstmann foi um dos precurssores da assessoria de imprensa em clubes de futebol. A curiosidade é que, antes de assumir a comunicação do Inter, em 1996, fez todo um projeto para trabalhar no Grêmio. Só que a direção Tricolor, à época, deu bobeira. “Queriam que eu trabalhasse meio turno. Então, segui na CRT até o Inter me convidar”.

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